Com um olhar depressivo, os seus olhos verdes focaram-se na lua. Um uivo dum lobo chegou aos seus ouvidos. A sua expressão era séria, dura, como se estivesse tão embrenhada em pensamentos que o mundo exterior desaparecera para ela. Sentada no topo daquela árvore, ela meditava sobre a sua vida. Toda a sua vida ela andou perdida, sem caminho, sem rumo para algo. Um cão rafeiro. Ela sempre se alimentou de lixo, nunca teve sonhos. Sim, ela era, na verdade, um cão rafeiro. Pensava o que outros não percebiam, compreendia o que outros não entendiam, era como outros nunca pensariam ser. Com um suspiro, ela ergueu uma mão ensanguentada. Após alguns longos segundos a observá-la, aproximou-a dos lábios e lentamente passou a língua pelo líquido vermelho. Os seus olhos, outrora verdes, ao focarem-se no infinito tornaram-se vermelhos. Ela olhou o ramo onde estava sentada, directamente para o corpo de uma menina pequena. Já nenhum sangue lhe restava, estando ela mais branca que o branco, e o seu rosto outrora feliz e sem preocupações como o de qualquer criança estava vazio. Sem qualquer ressentimento, a "rafeira" saltou da árvore directamente para o chão, aterrando nas quatro patas, e erguendo a cabeça para farejar o ar à sua volta enquanto mais uma vez a sua mente rodopiava em memórias. Ela nunca fora normal, nem em criança. Sempre fora rejeitada, posta de fora. Aprendera tudo demasiado cedo, sempre demasiado depressa. Sempre fora um cão rafeiro, o qual se alimentava de seres humanos para sobreviver. Ela sempre ouvira os humanos criticarem animais, e até demónios que julgam inexistentes, mas humanos nunca viram que o verdadeiro monstro são eles mesmos. Humanos manipulam, destroem, magoam, mentem... E começam desde novos a assim ser. Qualquer humano, queira, saiba, descubra ou não, acaba a ser um monstro. Mais monstro do que eu. Eu alimento-me de sangue, eu mato para viver, mas eu não destruo o mundo à minha volta. E eu sei que um dia eu não vou aguentar mais relembrar as memórias das minhas vítimas, e não vou aguentar mais o sentimento de sufoco que sinto por ser dominada por algo para lá do humano. Enquanto que os olhos dela são vermelhos, os meus são verdes, e basta um toque de raiva, um toque de necessidade, ou um toque de sangue, para eu me tornar nela. Ela ergue-se, ignorando os pensamentos da sua outra personalidade, uma personalidade também não humana, mas mais fraca. Ela anda pela rua, sem rumo, como um cão rafeiro. Ela nascera na rua, crescera na rua, e ela sabia que se um dia assim o fosse, ela ia morrer na rua. Tal e qual um cão rafeiro. Cão que está sempre alerta, sempre a farejar pelo perigo, sempre ciente do mundo à sua volta. Para ignorar o que realmente era. Num ímpeto de raiva, ela corre, saltando para o topo de um candeeiro de rua, e lá colocando-se qual gárgola olhando Paris. Algo a perturbava. Algo estava demasiado perto, e necessitava demasiado de algo dela... Mas o quê? Ela geralmente lia mentes, mas naquele momento isso parecia-lhe impossível... Estaria a perder os seus poderes? Estaria cansada? Seria culpa de ter bebido o sangue duma humana tão jovem? Numa fracção de segundo, percebeu, mas era tarde demais. Uma sombra abateu-se sobre ela, atirando-a para o passeio iluminado pela luz fraca do candeeiro de rua, e o tal ser segurou os braços da rafeira firmemente contra o chão, tendo ela apenas tempo de ver as suas presas para o seu instinto assassino causar com que ela erguesse as pernas e pontapeasse o seu inimigo no estômago. Enquanto este caia ao chão em dor, ela reparou numa arma que caíra do bolso dele, e pegou nela o mais depressa que pôde. Não era seu costume matar com mais do que o seu corpo, mas neste caso era a única coisa a fazer. Soltando o gatilho, ela apontou ao peito dele e disparou. Uma única gota de sangue ressaltou, voando até ao seu lábio inferior, e sem o conseguir evitar, ela passou a língua pela gota. Ao ver as memórias, ela caiu ao chão, ficando sem forças, e lágrimas de culpa, arrependimento e tristeza caíram dos seus olhos vermelhos. Ele não era apenas um demónio. Ele era um cão rafeiro. Como ela. Sem pensar duas vezes, sem querer saber de mais nada, ela encostou a ponta do cano da pistola à sua têmpora direita, e com um último olhar à lua, ela disparou, sussurando uma palavra que apenas ela sabia o significado: Mutsu... PhillGothDragon
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