Este sítio não é como os outros. O mar é negro, os restos de chão estão a desfazer-se, o céu é uma mistura doentia de cores que magoam a vista. A única parede existente neste sítio, é uma parede branca, suja e poeirenta, posicionada num pequeno pedaço de terra seca envolto de mar, como um muro inacabado. Encostada a essa parede está uma rapariga jovem, de cabelos negros e vestido branco. O seu rosto está escondido por fios negros enquanto ela abraça os joelhos, como que tentando proteger-se a si mesma. Subitamente, uma racha aparece numa aresta da parede, e a mão direita da rapariga fecha-se, como um espasmo. Quatro figuras negras, como fumo escurecido, aparecem à sua frente, observando-a com olhos inexistentes. Aproximam-se, e num movimento rápido, abatem-se sobre a rapariga, desaparecendo três. A que ficara, tinha as suas mãos enevoadas apoiadas nos braços da rapariga, como que prendendo-a, tentando que ela cedesse a algo. Mais rachas surgem na parede, cobrindo mais de um terço desta. A rapariga começa a tremer descontroladamente, e a figura desaparece. Gotas ouvem-se algures, e no vestido branco aparecem manchas de um vermelho vivo. Mais figuras negras aparecem, mas todas passam como se não houvesse uma parede a desfazer-se ou uma rapariga com roupa ensanguentada e corpo frágil. Todas, menos uma que observa a jovem como que rindo-se desta, achando-se mais. Mais uma zona da parede, talvez menos de um quarto, fica coberta de rachas. Todas as figuras se elevam numa única nuvem negra, desvanecendo até formarem uma única figura, com ar quase tão malévolo como as quatro primeiras. A rapariga pára de tremer. A névoa com forma humana aproxima-se e ajoelha-se perante ela, colocando cada mão de fumo nas pernas dela, e subitamente, puxou com uma força brutal, tendo as suas pernas sido esticadas e os seus braços terem-se deixado cair para cada lado do seu corpo, como uma boneca de trapos mal tratada. No entanto, ela continuava encostada à parede, o seu rosto escondido pelo seu cabelo. Mais figuras passam, e a uma velocidade alarmante as rachas da parede se foram espalhando, o vestido branco se tornava vermelho, o céu tomava um tom de tempestade, o vento soprava como que enraivecido. Cada vez mais as figuras aceleravam, tornando-se indistinguíveis. De repente, tudo pára. Não há vento, não há aragem, era como se toda a vida tivesse sido varrida em meros segundos. Na parede, apenas uma zona, uma pequena zona branca e limpa mesmo no centro, está livre de rachas. Duas figuras surgem, mas não são tão negras quanto as anteriores. Uma pequena aragem passa, e enquanto uma das figuras desaparece com a aragem, a outra vira as costas e desvanece. Rachas cobrem a última zona da parede e esta parte-se em pedras infinitas, como numa explosão. A rapariga cai para o lado, tal como quando uma boneca de trapos cai, e o cabelo que cobria o seu rosto cai para o lado. As suas órbitas estão vazias, os seus lábios cosidos e o seu rosto branco manchado de sangue e com pequenas rachas, tal como a parede. Duma órbita vazia, uma lágrima cai lentamente, escorrendo pelo seu rosto quebrado até cair para o solo seco, formando um trilho até uma pequena caixa de música partida, que começou a tocar uma melodia de criança e ao mesmo tempo sinistra. Uma mão pega na caixa de música e abraça-a junto ao seu peito. É outra rapariga, mas de vestido negro. O seu rosto não nos é revelado enquanto olha a outra jovem no chão. Ela ajoelha-se e toca-a com uma mão, fazendo com que mais lágrimas caiam das órbitas sem fundo. Os lábios da rapariga de vestido preto esticam-se num esgar animalesco, um rugido a formar-se na sua garganta, enquanto nas suas mãos a caixa de música pega fogo, a melodia que estava a emitir aumentando em volume. A última coisa que vemos são olhos vermelhos repletos de raiva e ódio, antes de as luzes se apagarem e a melodia parar.
PhillGothDragon
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